Texto da obra
Subiu
à barca.
Vai para Ieodo.
Para o lugar
de onde não se volta.
Aquilo que pintara
por toda a vida,
retirou
um a um.
Retirou o vento.
Retirou as ondas.
Retirou até
a própria assinatura.
Porque aquele
que escreveria
o nome
já não estava ali.
No lugar
onde tudo
tinha sido retirado,
deixou apenas
um cavalo.
Com uma linha tênue.
Com um corpo
cuja forma
parece prestes
a desfazer-se.
O cavalo
não se vai embora.
Enquanto o seu dono
vai para Ieodo,
permanece
nesta terra.
Da margem
do campo
de erva seca,
olha
a sua figura
afastar-se.
Mas o cavalo
não chora.
Quem caminhou
muito tempo junto
sabe,
mesmo de longe.
Isto
não é uma despedida.
É o caminho
que alguém toma
primeiro.
Terminado o exílio,
deposta até
a bênção,
ele vai
para Ieodo.
Sem assinatura.
Deixando apenas
um cavalo
nesta terra.
Colofão
Poemas e Pinturas do fūdo
Esteve de pé
no vento.
E no fim,
deixou a sua obra
como uma bênção.
1926 — 2013
Contexto-chave
Byun Shi-Ji foi um pintor coreano moderno e contemporâneo que tratou o Fūdo de Jeju não como cenário, mas como condição da existência. Solidão, espera, vento e a cor da erva seca formam um modernismo coreano glocal, enraizado no lugar e aberto ao mundo.
